O professor Amálio Pinheiro da PUC de SP me iniciou na leitura de Lezama Lima, escritor e ensaísta cubano. Ele integra o conjunto de um pensamento americanista plasmado nas décadas de 1940/50, com destaque também para Octávio Paz. Um pensamento articulado em mosaicos cujos vértices apontavam para uma constituição cultural única, de origens múltiplas, logo despida de etnocentrismos. Dessa perspectiva, não temos um começo, uma origem. Já somos. Tupi or not tupi. Transmutam-se entre nós informações de diversas culturas, de variadas épocas.
Lezama desenhou a imagem de um sujeito metafórico, espécie de entidade que leva esta processualidade a picos de plasticidade constitutiva: são momentos em que este poder demoníaco da tradução atinge graus elevados de sofisticação criativa. Nossa morenice erotizada, nossa malemolência, os ritmos múltiplos de nossos corpos semióticos transversais e profanos, tudo isso como que entra em um jorro de profusão espérmica: a cultura como gozo. Ao mesmo tempo, delineiam-se performances de elaboração complexa: informações culturais de ponta são processadas.
Dorival Caymmi, nosso buda nagô, encarnava esse sujeito metafórico lezaminiano: obra concisa, morena e moderna. Ponto singular de força seminal, Caymmi povoou o mundo de sonoridades vivas. A mestiçagem americana encontra nele um exímio tradutor musical: canções que pairam no tempo, assim, Caymmi.
No final do DVD do show Fina Estampa, Caetano Veloso, outro metafórico sujeito das múltiplas espécies conjugadas do continente, promove deliciosa síntese de tudo isso. Ao som da cubana Rumba Azul, o cantor parece improvisar dança de passos singulares. De sua sombra projetada emana em um só tempo Carmen Miranda, Caymmi e o Aleijadinho andando pelas montanhas mineiras. O legado de Lezama Lima vislumbra ali sua imagem síntese.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
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Um comentário:
Ronaldo! Não acho teu e-mail ...
faça contato, please ...
toniandre@gmail.com
quero saber se pode conseguir um material para mim aih da Unisinos!
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