Nunca confiei no Tribunal de Contas. Mesmo sem dados concretos, mas com indícios dispersos, tinha a sensação de que o órgão encarregado de proteger o dinheiro público oportunizara com que alguns dos seus membros se esbaldassem nele. Emanava desta instituição energia pesada, intoxicante. Agora finalmente o TCE vai para o olho do furacão das maracutaias gaúchas que nos surpreendem a todo o instante, desde que foi deflagrada a Operação Rodin, com a ampliação da rede de coluios. Infelizmente o que era sensação se converte em indisfarçável evidência.
A farra de escândalos chegou a visitar o gabinete do governo do Estado. Entretanto, o conteúdo da fita que o vice-governador gravou da conversa que teve com o ex-chefe da Casa Civil parece esvaziado por estratégias editoriais não muito dispostas a investigá-las. Enquanto isso, o comando da Brigada Militar não economiza em truculência para deter a manifestação de movimentos sociais em uma rede de supermercados globalizada. Ou seja, um estado sob suspeita manda bater, sem dó nem piedade, nos movimentos que não se conformam com a atual ordem das coisas, ordem esta defendida pelos setores que assumiram o estado.
O que poderia ser uma nota diferente no noticiário reforça hipocrisia perversa. Em Belo Horizonte, um rapaz quis surpreender garota com buquê de flores, anel e um pedido de namoro em uma escola. Foi impedido por seguranças. Não conformado, tentou pular o muro. Vizinhos impregnados com a paranóia da segurança e da vigilância (o panóptico de Focault) resolvem denunciá-lo e ele acaba preso por querer fazer uma declaração de amor. O escritor Roberto Freire, que faleceu recentemente, falava, em Cléo e Daniel, do poder corrosivo de um simples beijo. Em Dialética da Solidão, Octávio Paz detecta a incapacidade burguesa de vivenciar o amor na sua radicalidade. Quando a Globo não tem coragem de colocar no ar um beijo gay e gente é presa por tentar entregar flores à namorada, não deveria causar espanto que movimentos sociais derrubassem gandulas para propor um mundo diferente.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Adversidades políticas
Os recentes escândalos protagonizados pela política do Rio Grande do Sul merecem alguma dose de atenção. O estado sempre se orgulhou (entre tantos outros orgulhos desmedidos) de ter uma classe política avessa a corrupções e de conduta retilínea. Isso, além de ser uma impossibilidade conceitual, jamais de fato existiu. Porque os escândalos sempre pontuaram a nossa política, basta lembrar as cestinhas de natal na Câmera de Vereadores de São Leopoldo que eu mesmo denunciei em 1984. Daquela vez houve processo judicial e os 21 ocupantes do legislativo municipal foram condenados e impedidos de se candidatarem na eleição seguinte.
O episódio em tela mostra-se repleto de nuances interessantes. Há um emaranhado de intrigas palacianas e palacianinhas que coloca em cheque o teor das alianças costuradas não só no furor da eleição, mas também para sustentar a governabilidade da coligação eleita. No caso de Yeda e Feijó insurgiu uma estranha rusga de saída, parecendo que governadora e vice emergissem de chapas distintas. A fora isso, a governadora prima pela arrogância, aspecto que a afasta de políticos, digamos, mais alinhados com o “bem” abrindo avenidas para se cercar da banda podre perita em maracutaias. Também chama a atenção deputados do PT se associarem a Feijó, do Democratas, antigo PFL, inimigos mortais em tantas outras pelejas.
Assim que estourou a operação Rodin e a CPI, não levei muita fé que toda esta encrenca ascendesse a conseqüências políticas mais sérias. Pelo visto, estava completamente enganado. Um político experiente do PMDB, que já surfou pelo PSDB, me garantiu que a governadora não atravessa o ano no cargo. Talvez seja exagero, mas devido ao inevitável isolamento que seu governo passa a mergulhar por sucessivas crises políticas a pouco mais de um ano de mandato, não surpreenderá que um fora Yeda comece a ganhar corpo.
O episódio em tela mostra-se repleto de nuances interessantes. Há um emaranhado de intrigas palacianas e palacianinhas que coloca em cheque o teor das alianças costuradas não só no furor da eleição, mas também para sustentar a governabilidade da coligação eleita. No caso de Yeda e Feijó insurgiu uma estranha rusga de saída, parecendo que governadora e vice emergissem de chapas distintas. A fora isso, a governadora prima pela arrogância, aspecto que a afasta de políticos, digamos, mais alinhados com o “bem” abrindo avenidas para se cercar da banda podre perita em maracutaias. Também chama a atenção deputados do PT se associarem a Feijó, do Democratas, antigo PFL, inimigos mortais em tantas outras pelejas.
Assim que estourou a operação Rodin e a CPI, não levei muita fé que toda esta encrenca ascendesse a conseqüências políticas mais sérias. Pelo visto, estava completamente enganado. Um político experiente do PMDB, que já surfou pelo PSDB, me garantiu que a governadora não atravessa o ano no cargo. Talvez seja exagero, mas devido ao inevitável isolamento que seu governo passa a mergulhar por sucessivas crises políticas a pouco mais de um ano de mandato, não surpreenderá que um fora Yeda comece a ganhar corpo.
Bergman
Quando assisti Gritos e Sussurros de Ingmar Bergman, tinha um pouco mais de 14 anos. Na época, abria mão da meia entrada para não ser obrigado a apresentar carteira de estudante na portaria e assim conseguia livre acesso aos filmes proibidos para menores numa época em que esse tipo de controle era exercido com total rigor. Esse filme, particularmente, significou uma espécie de entrada abrupta na idade adulta. Todas aquelas tensões em tons vermelhos me conduziram para labirintos do ser que eram, ao mesmo tempo, deslumbrantes e apavorantes. Lembro até hoje da perplexidade que fiquei, mesmo sem entender a plena profundidade do que vislumbrava, mas com a convicção de perceber, naquela tela de um imenso rubro, a fratura exposta da alma humana, tão frágil na sua magnitude.
Três momentos do filme de Bergman tiveram especial eco na minha memória. Em um deles, uma das irmãs vai, por obrigação, fazer sexo com o marido, espatifa uma taça nas mãos, introduz os estilhaços na vagina e exclama: isso não passa de um punhado de mentiras. Na outra, o pastor encomenda o corpo de irmã que morre, rogando a ela que, se encontrasse o criador, pedisse que nos fornecesse um significado para nossas vidas. Na terceira, a criada aconchega a moribunda em seu colo e lhe dá de mamar, recriando a Pietà, como que desejando perpetuar a vida.
Aquela noite de domingo tornou-se inesquecível. Foi como se um turbilhão de enigmas, desafios, tensões, insolvências se desfraldasse diante de uma mente ainda precoce para se ocupar com o sofrimento do mundo. Eu, que já vinha de um histórico de ausências, da orfandade e, de uma certa forma, de me sentir só no mundo, percebi, via Bergman, uma espécie de solidariedade, de universalidade de uma sensação que me parecia tão particular e exclusiva.
Por conta disso, Bergman se transformou em um dos cineastas do meu coração. Muita gente não gostava, não se sentiam à vontade diante do que entendiam como frieza excessivamente nórdica, pessimismo e muita perturbação de alma. Eu interagia com este universo plenamente, no que pese uma certa vocação para alegria. O duelo de piano que ele estabelece entre mãe e filha interpretadas pelas maravilhosas Liv Ulmann, a principal atriz de sua carreira, e Ingrid Bergman, é uma das coisas mais memoráveis da história do cinema.
O pastor que encomenda o corpo de Agnes em Gritos e Sussurros num determinado momento sai do roteiro de uma oração burocrática e implora: “Se for o caso de que tenhas juntado nosso sofrimento em teu pobre corpo; se for o caso de que o tenhas carregado contigo através da morte; se for o caso de que encontres Deus, lá longe, nessas outras plagas; se for o caso de que possas então falar a língua que este Deus entende; se for o caso de que possas então falar com este Deus. Se for esse o caso. Pede por nós Agnes, querida criancinha, e escuta o que agora vou te dizer. Pede por nós que ficamos para trás nesta terra escura e suja, sob um céu vazio e cruel. Deposita teu fardo de sofrimento aos pés do Deus e pede-Lhe para nos perdoar, pede-Lhe, finalmente, para que nos liberte de nossa ansiedade, de nosso desgosto e de nossa dúvida profunda”.
Querido Bergman, de onde estiver faça isso: peça por nós.
Três momentos do filme de Bergman tiveram especial eco na minha memória. Em um deles, uma das irmãs vai, por obrigação, fazer sexo com o marido, espatifa uma taça nas mãos, introduz os estilhaços na vagina e exclama: isso não passa de um punhado de mentiras. Na outra, o pastor encomenda o corpo de irmã que morre, rogando a ela que, se encontrasse o criador, pedisse que nos fornecesse um significado para nossas vidas. Na terceira, a criada aconchega a moribunda em seu colo e lhe dá de mamar, recriando a Pietà, como que desejando perpetuar a vida.
Aquela noite de domingo tornou-se inesquecível. Foi como se um turbilhão de enigmas, desafios, tensões, insolvências se desfraldasse diante de uma mente ainda precoce para se ocupar com o sofrimento do mundo. Eu, que já vinha de um histórico de ausências, da orfandade e, de uma certa forma, de me sentir só no mundo, percebi, via Bergman, uma espécie de solidariedade, de universalidade de uma sensação que me parecia tão particular e exclusiva.
Por conta disso, Bergman se transformou em um dos cineastas do meu coração. Muita gente não gostava, não se sentiam à vontade diante do que entendiam como frieza excessivamente nórdica, pessimismo e muita perturbação de alma. Eu interagia com este universo plenamente, no que pese uma certa vocação para alegria. O duelo de piano que ele estabelece entre mãe e filha interpretadas pelas maravilhosas Liv Ulmann, a principal atriz de sua carreira, e Ingrid Bergman, é uma das coisas mais memoráveis da história do cinema.
O pastor que encomenda o corpo de Agnes em Gritos e Sussurros num determinado momento sai do roteiro de uma oração burocrática e implora: “Se for o caso de que tenhas juntado nosso sofrimento em teu pobre corpo; se for o caso de que o tenhas carregado contigo através da morte; se for o caso de que encontres Deus, lá longe, nessas outras plagas; se for o caso de que possas então falar a língua que este Deus entende; se for o caso de que possas então falar com este Deus. Se for esse o caso. Pede por nós Agnes, querida criancinha, e escuta o que agora vou te dizer. Pede por nós que ficamos para trás nesta terra escura e suja, sob um céu vazio e cruel. Deposita teu fardo de sofrimento aos pés do Deus e pede-Lhe para nos perdoar, pede-Lhe, finalmente, para que nos liberte de nossa ansiedade, de nosso desgosto e de nossa dúvida profunda”.
Querido Bergman, de onde estiver faça isso: peça por nós.
Ganância
Ao longo destas duas semanas que precederam à tragédia doa Airbus da TAM, uma enxurrada de situações, questões, dissimulações e pouquíssimas ações inundou os espaços midiáticos. Até mesmo uma polêmica envolvendo o aparentemente asséptico Observatório da Imprensa - para alguns maldosos, crematório -, que resolveu reproduzir imagem não liberada pela TV Cultura, em que um corpo em chamas aparece despencando do prédio dos horrores, ganhou a cena com alguma repercussão. De tudo que foi dito (e a Veja mais uma vez resolveu a questão, como havia feito tempos atrás quando endossou de forma categórica o laudo falso de Badan Palhares no caso de assassinato de PC Farias: a culpa foi do piloto) gostaria de chamar a atenção para duas circunstâncias que, se não foram as responsáveis diretas pelo acidente, são, no meu entendimento, seus principais deflagradores.
Falo, de um lado, da ganância exacerbada que ganha formas sofisticadas, mas no fundo grosseiras, neste capitalismo ultra turbinado dos chamados tempos globalizados e, de outro, desta coisa brasileira tão nossa de desprezar sistematicamente dispositivos de segurança como se eles mais atrapalhassem do que nos ajudassem. Quando implementaram Cumbica na década de 1980, as autoridades da época reduziram Congonhas a um aeroporto de poucas operações. Ele já não oferecia mais segurança devido aos limites de sua pista e pelo fato de que a especulação imobiliária transformara seu entorno numa cidade completa que, em se tratando de São Paulo, se traduz na construção de imensos espigões. No correr da década seguinte, aquilo que era perigoso passou, aos poucos deixou de ser. Coincidindo com a entrada em circulação da TAM, cujos vôos regionais tinham como destino Congonhas, rapidamente este aeroporto voltou a um esquema de grande circulação e, nos anos 2000 já reinava novamente como o mais movimentado do país.
O que aconteceu neste meio tempo? Mudou a percepção das autoridades com relação à segurança do local? De uma hora para a outra o aeroporto voltou a oferecer tranqüilidade? Evidentemente que há uma pressão econômica nesta metamorfose vil. Concentrar as conexões em Congonhas significa uma excelente otimização de custos nas operações das companhias que, ato contínuo, passaram a aumentar significativamente o volume de vôos com o ocaso das empresas tradicionais e a emergência das novas, a GOL à frente, em que os serviços de bordo praticamente desaparecem o que diminui o valor das passagens. Muito mais gente voando e todos, quando não no destino final, passando por Congonhas.
Essa tendência do comércio aéreo sequer se abalou com a tragédia do Folker 100 há 10 anos, que já sinalizava para os perigos iminentes de um aeroporto cravado no interior de uma grande cidade. Congonhas passou por uma grande reforma, boa parte dela cosmética: a área interna foi incrementada com salas de embarque mais confortáveis e muitas lojas, restaurantes e outros serviços disputando cada palmo de espaço disponível. Já as pistas.... E, para complicar, ainda autorizam a edificação de novos prédios quase que na cabeceira da pista.
Enquanto isso, o Airbus que explodiu estava com defeito em um dos reversos. Mas não faz mal, deve ter pensado a companhia. Vamos deixar assim mesmo. Estamos em alta temporada e não podemos abrir mão desta aeronave. Não podemos comprometer nossos lucros. Depois resolveremos isso. Enfim, nós já tínhamos feito um grande pressão para reformarem a pista principal antes de começarem as férias de julho, não podemos parar agora. Capitalismo selvagem é pouco. Ganância pura.
E aí entra o tal jeito brasileiro de lidar com segurança, como se acidentes só acontecessem com os outros. Prevenção para quê? Fico sempre muito impressionado quando vejo pais atravessando avenidas com filhos pequenos nos lugares mais impróprios. É tão forte esta cultura que, quando me deparo com tal cena, chego a duvidar do amor incondicional que os pais juram ter pelos filhos. Que é amor é esse que faz com que uma mãe sente-se no banco da frente de um carro com seu bebê no colo? E as pessoas que falam no celular ao volante sem o menor constrangimento, para não dizer prepotência?
Há inúmeras outras situações típicas de irresponsabilidade coletiva que não vale à pena ficar aqui listando. Mas essa cultura adicionada ao apetite voraz das companhias se transforma em bombas das quais nem eu, nem você estaremos livre. E para dar mais combustível a essa ganância, a gestão do setor aéreo com Infreaéro, Anacs e ministérios loteados, é uma piada daquelas que não tem a menor graça. Como alguém já disse, pare o mundo que eu quero descer.
Falo, de um lado, da ganância exacerbada que ganha formas sofisticadas, mas no fundo grosseiras, neste capitalismo ultra turbinado dos chamados tempos globalizados e, de outro, desta coisa brasileira tão nossa de desprezar sistematicamente dispositivos de segurança como se eles mais atrapalhassem do que nos ajudassem. Quando implementaram Cumbica na década de 1980, as autoridades da época reduziram Congonhas a um aeroporto de poucas operações. Ele já não oferecia mais segurança devido aos limites de sua pista e pelo fato de que a especulação imobiliária transformara seu entorno numa cidade completa que, em se tratando de São Paulo, se traduz na construção de imensos espigões. No correr da década seguinte, aquilo que era perigoso passou, aos poucos deixou de ser. Coincidindo com a entrada em circulação da TAM, cujos vôos regionais tinham como destino Congonhas, rapidamente este aeroporto voltou a um esquema de grande circulação e, nos anos 2000 já reinava novamente como o mais movimentado do país.
O que aconteceu neste meio tempo? Mudou a percepção das autoridades com relação à segurança do local? De uma hora para a outra o aeroporto voltou a oferecer tranqüilidade? Evidentemente que há uma pressão econômica nesta metamorfose vil. Concentrar as conexões em Congonhas significa uma excelente otimização de custos nas operações das companhias que, ato contínuo, passaram a aumentar significativamente o volume de vôos com o ocaso das empresas tradicionais e a emergência das novas, a GOL à frente, em que os serviços de bordo praticamente desaparecem o que diminui o valor das passagens. Muito mais gente voando e todos, quando não no destino final, passando por Congonhas.
Essa tendência do comércio aéreo sequer se abalou com a tragédia do Folker 100 há 10 anos, que já sinalizava para os perigos iminentes de um aeroporto cravado no interior de uma grande cidade. Congonhas passou por uma grande reforma, boa parte dela cosmética: a área interna foi incrementada com salas de embarque mais confortáveis e muitas lojas, restaurantes e outros serviços disputando cada palmo de espaço disponível. Já as pistas.... E, para complicar, ainda autorizam a edificação de novos prédios quase que na cabeceira da pista.
Enquanto isso, o Airbus que explodiu estava com defeito em um dos reversos. Mas não faz mal, deve ter pensado a companhia. Vamos deixar assim mesmo. Estamos em alta temporada e não podemos abrir mão desta aeronave. Não podemos comprometer nossos lucros. Depois resolveremos isso. Enfim, nós já tínhamos feito um grande pressão para reformarem a pista principal antes de começarem as férias de julho, não podemos parar agora. Capitalismo selvagem é pouco. Ganância pura.
E aí entra o tal jeito brasileiro de lidar com segurança, como se acidentes só acontecessem com os outros. Prevenção para quê? Fico sempre muito impressionado quando vejo pais atravessando avenidas com filhos pequenos nos lugares mais impróprios. É tão forte esta cultura que, quando me deparo com tal cena, chego a duvidar do amor incondicional que os pais juram ter pelos filhos. Que é amor é esse que faz com que uma mãe sente-se no banco da frente de um carro com seu bebê no colo? E as pessoas que falam no celular ao volante sem o menor constrangimento, para não dizer prepotência?
Há inúmeras outras situações típicas de irresponsabilidade coletiva que não vale à pena ficar aqui listando. Mas essa cultura adicionada ao apetite voraz das companhias se transforma em bombas das quais nem eu, nem você estaremos livre. E para dar mais combustível a essa ganância, a gestão do setor aéreo com Infreaéro, Anacs e ministérios loteados, é uma piada daquelas que não tem a menor graça. Como alguém já disse, pare o mundo que eu quero descer.
Memórias midiáticas
Quando criança na década de 1960, as tardes de domingo eram povoadas pela proliferação de sons que transbordavam de grandes aparelhos de rádio acionados por vávulas e por alguns poucos, mas já insinuantes, pequenos aparelhos de pilhas que tinham nos modernos transistores a fonte do seu charme portátil irresistível. Os sons atravessavam as ruas tomadas por garotos que inventavam brincadeiras, a maioria delas movida pelas bolas que passavam de pé em pé, e por vezes, uma matada no peito e um cabeceio. Lá pelas tantas, as canções de Lennon e McCarteney e de Chico Buarque (sim, naquela época as emissoras tocavam Chico Buarque) cessavam e instalava-se o frenesi: iniciavam as jornadas esportivas que atravessavam as tardes até o limiar da noite.
Aquele universo sonoro com suas descrições de dribles mirabolantes, defesas impensáveis, a trajetória terrivelmente lenta da bola que quase chegava à rede, mas desviava-se e chocava-se na trave, ou, quando chegava, a explosão do locutor gritando gol, enfim, esse mundo que se imaginava através dos sons era absolutamente arrebatador. Sem esses sons midiáticos que se dispersaram em memórias difusas, talvez jamais se desenvolve-se, entre minhas predileções, a paixão pelo futebol. Paixão reforçada nas matinês quando exibiam, em cinemascop, antes da dupla sessão de filmes ou de Tarzan, ou de 007, as grandiloqüentes imagens de partidas travadas no Maracanã.
O poder agenciador da mídia em todas as instâncias da vida humana é fato irrecusável e fomenta boa parte dos estudos sobre comunicação. Imagina-se o impacto suscitado em gerações mais pregressas com o nascedouro desses meios que tinham a capacidade de levar a territórios longínqüos notícias, romances, histórias fantásticas, boxe e futebol. Compreensível que a apreensão crítica sobre esses meios se exacerbassempelas transformações que provocaram, pelo seu potencial caráter homogenizador, pelas ingerências econômico-ideológicas, pelos perigos manipulatórios. Compreensível, também, que nessa fase do capitalismo, a indústria midiática trouxesse outras problemáticas aterrorizadoras como se vivêssemos num panótico sem saída, controlado pela mídia.
Entretanto, quando lembro dos sons das narrativas esportivas, ocorre-me que algo se perde nas necessárias perspectivas críticas nas quais se enquadram boa parte das teorias da comunicação. No que pese toda a ordem de problemas que os mídias suscitam, há neles uma coisa chamada dimensão lúdica. E como mídias formam sistemas abertos e hipercomplexos, sujeitos a ruídos, entropias e acasos, o lúdico é um dos elementos que tem força para desestruturar, pelo menos em parte, seu caráter ultra agenciador
Aquele universo sonoro com suas descrições de dribles mirabolantes, defesas impensáveis, a trajetória terrivelmente lenta da bola que quase chegava à rede, mas desviava-se e chocava-se na trave, ou, quando chegava, a explosão do locutor gritando gol, enfim, esse mundo que se imaginava através dos sons era absolutamente arrebatador. Sem esses sons midiáticos que se dispersaram em memórias difusas, talvez jamais se desenvolve-se, entre minhas predileções, a paixão pelo futebol. Paixão reforçada nas matinês quando exibiam, em cinemascop, antes da dupla sessão de filmes ou de Tarzan, ou de 007, as grandiloqüentes imagens de partidas travadas no Maracanã.
O poder agenciador da mídia em todas as instâncias da vida humana é fato irrecusável e fomenta boa parte dos estudos sobre comunicação. Imagina-se o impacto suscitado em gerações mais pregressas com o nascedouro desses meios que tinham a capacidade de levar a territórios longínqüos notícias, romances, histórias fantásticas, boxe e futebol. Compreensível que a apreensão crítica sobre esses meios se exacerbassempelas transformações que provocaram, pelo seu potencial caráter homogenizador, pelas ingerências econômico-ideológicas, pelos perigos manipulatórios. Compreensível, também, que nessa fase do capitalismo, a indústria midiática trouxesse outras problemáticas aterrorizadoras como se vivêssemos num panótico sem saída, controlado pela mídia.
Entretanto, quando lembro dos sons das narrativas esportivas, ocorre-me que algo se perde nas necessárias perspectivas críticas nas quais se enquadram boa parte das teorias da comunicação. No que pese toda a ordem de problemas que os mídias suscitam, há neles uma coisa chamada dimensão lúdica. E como mídias formam sistemas abertos e hipercomplexos, sujeitos a ruídos, entropias e acasos, o lúdico é um dos elementos que tem força para desestruturar, pelo menos em parte, seu caráter ultra agenciador
Mudanças: espaço em obras
Faço aqui migração de blog hospedado anteriormente em outro lugar. Por conta disso resolvi disponibilizar textos antigos (com postagens em torno de dois anos) não porque os vejo com alguma importância mas, sobreduto, por alguns vínculos afetivos com eles. O espaço está em obras e pretendo concluí-las nos próximos dias. As mudanças são sempre trabalhosas.
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