Por diversas horas ontem o ClicRBS deixou exposta na sua capa foto do jogador Alexandre Pato em situação de intimidade com sua namorada Barbara Berlusconi. A imagem mostrava o atleta com a mão na região glútea da menina sugerindo um aperto intenso. A chamada remetia ao blog ByN9ve que reproduzia matéria sobre o casal publicada na Novela Cover Story.
Assim que me deparei com a imagem reagi com indignação na medida em que não acho razoável que um portal que almeja seriedade exponha a intimidade das pessoas. O jogador tem o direito de divertir-se com a mão onde quiser e nós, a rigor, não temos nada a ver com isso. Trabalhar com esse tipo de “acontecimento” no enquadramento proposto sugere um jornalismo excessivamente apelativo, vulgar e frívolo. Não condeno, a priori, esse gênero de pautas, mas entendo que alguma fronteira de razoabilidade ética teria que ser estabelecida.
Em função disso, postei comentário no blog em questão nos seguintes termos: “Não considero adequado que um portal que se pretende sério publique fotos expondo intimidade das pessoas na capa. Quanto ao blog, penso que até futilidade tem limite”. O comentário ficou aguardando moderação e não foi publicado. Como não é a primeira vez que redijo opinião crítica à alguma abordagem do clic e não sai, resolvi questionar isso através de email dirigido a autora do blog, Cláudia Ioschpe, com cópia para a editora do ClicRBS, Fabiane Echel. Reproduzo o texto : Começo a suspeitar que o ClicRBS não é tolerante a críticas pois novamente comentário que discorda de práticas editorais do portal não passou pela "mediação". Manifestei ontem minha discordância com exibição de foto que mostra o jogador Alexandre Pato em situação de intimidade tanto no blog quanto na capa do Clic, julgando a prática inadequada e apelativa. Como já aconteceu em situações anteriores, o comentário aparentemente foi vetado.
Para minha surpresa, obtive a seguinte resposta da blogueira: Oi Ronaldo, não publicamos seu comentário porque a mensagem continha ofensas. Comentários que tenham palavras de preconceito, de dano moral, palavrões e etc, nunca serão liberados. Essas são as regras do portal, mas tenha certeza que quando seu comentário não conter conteúdo como os citados acima, eles serão liberados. Att.
Fiquei perplexo: o jornal publica uma imagem desse porte e eu que sou ofensivo na minha rejeição? E chamar o blog de fútil pode ser considerado palavrão ou dano moral?
Não conformado, encaminhei a seguinte resposta: Meu comentário não continha qualquer tipo de ofensa. Questionei a seriedade do portal por publicar foto na capa e escrevi "quanto ao blog, penso que até futilidade tem limite". Trata-se de um jogo discursivo irônico, mas não ofensivo. Assim sendo, posso considerar muitos dos textos que esse portal abriga ofensivos na medida em que expressam críticas nos mais diversos tons a uma infinidade de personalidades e situações. Nessa lógica, os outros podem ser objetos de críticas, mas o clicRBS não, o que desbanca a ideia de uma interatividade mais ativa do meio em questão.
O jornalismo, como diz meu amigo Fernando Resende, coloca-se num lugar que tem o poder sobre a fala do outro. Cada vez mais fico convicto que esse poder é tão fortemente inoculado que os jornalistas pensam que estão numa esfera superior que refuta qualquer manifestação crítica do mundo concreto.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Morin, a complexidade da crise e o jornalismo diminuto
A palestra de Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento ontem em Porto Alegre revelou-se extraordinária. Aos 90 anos, em plena forma física e intelectual, ele fez análise da atual conjuntura global, com ênfase na crise que afeta as bolsas, alertando que não se trata de algo que se dá apenas no plano econômico. Estamos diante de uma crise profunda, de várias dimensões que, como toda a crise concebida de forma sistêmica e complexa, pode produzir situações terríveis mas também perspectivas alvissareiras. Condenou o que chamou de "tentáculos terríveis do polvo do mercado capitalista insano" e o "polvo dos fundamentalismos religiosos e xenófobos". Defendeu uma mescla de "globalização e desglobalização" que contemple os laços comunitários em rede com uma possível gestão compatilhada dos problemas globais e os laços comunitários presenciais com a consolidação das múltiplas identidades. Apesar de todos os horrores, ainda se diz esperançoso dando sentidos complexos às desgatastadas palavras amor e solidariedade.
Na contramão do seu pensamento, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou matéria que não conseguiu captar a alma do seu pensamento. Dedicou as páginas 4 a 10 à cobertura da atual crise. A análise mais original sobre ela estava justamente na conferência desse grande pensador. O jornal prefiriu ignorar isso, privilegiando apenas os seus aspectos técnicos e políticos, colocando matéria da palestra na pag. 28 com o ridículo título "De improviso e com esperança". As práticas de edição do jornalismo ainda continuam alheias à complexidade do mundo.
Na contramão do seu pensamento, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou matéria que não conseguiu captar a alma do seu pensamento. Dedicou as páginas 4 a 10 à cobertura da atual crise. A análise mais original sobre ela estava justamente na conferência desse grande pensador. O jornal prefiriu ignorar isso, privilegiando apenas os seus aspectos técnicos e políticos, colocando matéria da palestra na pag. 28 com o ridículo título "De improviso e com esperança". As práticas de edição do jornalismo ainda continuam alheias à complexidade do mundo.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O mundo é dos retardados
Uma campanha publicitária da Net atualmente no ar é sintomática do grau de abobalhamento com que a publicidade brasileira constrói seus públicos. Em um dos filmes o “chefe” de uma família ruiva negocia com solícita atendente da operadora o pacote mais razoável para seu clã. Ela informa que há opções exatas para o tamanho de cada necessidade fazendo com que o rapaz exultante exclame para a mulher e os dois filhos enfileirados em um sofá: vai rolar. A família vibra estrondosamente fazendo barulho com uma espécie de chocalho. Do outro lado da linha, a atendente mimetiza os traços físicos do provável cliente, fazendo som ensurdecedor com o mesmo instrumento no que é acompanhada por toda a equipe de operadores.
Além do fato de eu desconhecer pessoa que tenha encontrado tremenda empatia em funcionário da Net, o filme alinha-se a tantos outros que ao retratarem consumidores de produtos e serviços os transformam em debilóides. É como se nesta sociedade não houvesse espaço para qualquer gesto de maturidade: a infantilização desponta como uma espécie de condição fundamental para o consumo. Nela não cabe a densidade do pensamento e da crítica. Esse perfil que o comercial institui torna-se mais significativo porque ali o que se vende é um serviço de televisão por assinatura. Antigamente associava-se à possibilidade de maior diversidade na oferta de canais uma maior qualificação da televisão. A realidade veio nos mostrar um aumento da estupidez. Por várias vezes já percorri os mais de 100 canais e não encontrei nada de diferente que me seduzisse. Simplesmente o mais do mesmo. Pelo menos neste sentido a publicidade é sincera ao tratar seu público alvo como idiota. O mundo é dos nets, diz o slogan. Se for esse o perfil de quem tem acesso ao consumo, então mais correto seria dizer: o mundo é dos retardados.
Além do fato de eu desconhecer pessoa que tenha encontrado tremenda empatia em funcionário da Net, o filme alinha-se a tantos outros que ao retratarem consumidores de produtos e serviços os transformam em debilóides. É como se nesta sociedade não houvesse espaço para qualquer gesto de maturidade: a infantilização desponta como uma espécie de condição fundamental para o consumo. Nela não cabe a densidade do pensamento e da crítica. Esse perfil que o comercial institui torna-se mais significativo porque ali o que se vende é um serviço de televisão por assinatura. Antigamente associava-se à possibilidade de maior diversidade na oferta de canais uma maior qualificação da televisão. A realidade veio nos mostrar um aumento da estupidez. Por várias vezes já percorri os mais de 100 canais e não encontrei nada de diferente que me seduzisse. Simplesmente o mais do mesmo. Pelo menos neste sentido a publicidade é sincera ao tratar seu público alvo como idiota. O mundo é dos nets, diz o slogan. Se for esse o perfil de quem tem acesso ao consumo, então mais correto seria dizer: o mundo é dos retardados.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Eleições
Depois de algum tempo sem postar me vi impelido a fazê-lo. No momento, estou lendo trabalho de aluno que vai para exame de qualificação em mestrado e cuja proposta de pesquisa aborda exatamente os blogs, mais precisamente os que tratam de política diferentemente daqueles endossados pela grande imprensa. Na medida em que leio fico acometido por certa culpa de ter abandonado este espaço justamente num período em que trilhões de coisas interessantes estão pipocando (e quando não estariam?). Como estamos em pleno segundo turno das eleições municipais, vou me deter nelas um pouco.
Morando em Porto Alegre, votarei em Maria do Rosário do PT, repetindo o voto do primeiro turno. Quando começou a campanha, cheguei a cogitar de votar na Luciana Genro (PSOL) por várias razões: dentro do PT preferiria mil vezes Miguel Rosseto à Rosário e achava que seria interessante para cidade uma experiência mais à esquerda depois da gestão conservadoramente chocha de Fogaça. Na última hora, entretanto, com o avanço de Manuela (PC do B coligado com o PPS de Antônio Britto), fui seduzido pelo voto útil.
Fiquei muito decepcionado com Manuela. Quando postulou a Câmera de Vereadores há quatro anos votei nela porque via nesta candidatura oriunda do movimento estudantil uma espécie de arejamento da política: achei que isso faria bem para aquela instituição e para a cidade. Depois de dois anos ela se lançou à Câmara Federal e repeti o voto de confiança seguindo os mesmos critérios. Agora percebo que foi um erro. Ela não arejou coisa alguma e teve o comportamento mais ortodoxo e vil da política: oportunismo exacerbado e alianças difíceis de engolir.
Conseguindo bater Manuela, Rosário dá a impressão de aflorar neste segundo turno. Sua performance antes parecia neutralizada pelas outras candidatas, em alguns níveis muito parecidas. Assistindo os dois debates até agora (TV COM e Rádio Gaúcha) ela em tudo está superior a Fogaça: apresenta segurança, domínio das informações, é propositiva e consegue, finalmente, sinalizar competência para o cargo.
Não consigo entender a votação do atual prefeito. Qualquer pessoa que circule pela cidade percebe que vários serviços estão deficitários. É uma administração sem brilho, borocoxo. Sua imagem nas propagandas e nos debates é tediosa. Tirando-se a votação mais furiosamente anti-petista (que imagino estar nos 37, 40 por cento), acho que os demais votos ainda podem ser revertidos (a última pesquisa que li o colocava com 51pontos). Antes estava reticente, mas agora vou de Rosário sem pestanejar. Espero que o eleitorado de Porto Alegre nos poupe de mais quatro anos de songamonguice.
Morando em Porto Alegre, votarei em Maria do Rosário do PT, repetindo o voto do primeiro turno. Quando começou a campanha, cheguei a cogitar de votar na Luciana Genro (PSOL) por várias razões: dentro do PT preferiria mil vezes Miguel Rosseto à Rosário e achava que seria interessante para cidade uma experiência mais à esquerda depois da gestão conservadoramente chocha de Fogaça. Na última hora, entretanto, com o avanço de Manuela (PC do B coligado com o PPS de Antônio Britto), fui seduzido pelo voto útil.
Fiquei muito decepcionado com Manuela. Quando postulou a Câmera de Vereadores há quatro anos votei nela porque via nesta candidatura oriunda do movimento estudantil uma espécie de arejamento da política: achei que isso faria bem para aquela instituição e para a cidade. Depois de dois anos ela se lançou à Câmara Federal e repeti o voto de confiança seguindo os mesmos critérios. Agora percebo que foi um erro. Ela não arejou coisa alguma e teve o comportamento mais ortodoxo e vil da política: oportunismo exacerbado e alianças difíceis de engolir.
Conseguindo bater Manuela, Rosário dá a impressão de aflorar neste segundo turno. Sua performance antes parecia neutralizada pelas outras candidatas, em alguns níveis muito parecidas. Assistindo os dois debates até agora (TV COM e Rádio Gaúcha) ela em tudo está superior a Fogaça: apresenta segurança, domínio das informações, é propositiva e consegue, finalmente, sinalizar competência para o cargo.
Não consigo entender a votação do atual prefeito. Qualquer pessoa que circule pela cidade percebe que vários serviços estão deficitários. É uma administração sem brilho, borocoxo. Sua imagem nas propagandas e nos debates é tediosa. Tirando-se a votação mais furiosamente anti-petista (que imagino estar nos 37, 40 por cento), acho que os demais votos ainda podem ser revertidos (a última pesquisa que li o colocava com 51pontos). Antes estava reticente, mas agora vou de Rosário sem pestanejar. Espero que o eleitorado de Porto Alegre nos poupe de mais quatro anos de songamonguice.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Caymmi
O professor Amálio Pinheiro da PUC de SP me iniciou na leitura de Lezama Lima, escritor e ensaísta cubano. Ele integra o conjunto de um pensamento americanista plasmado nas décadas de 1940/50, com destaque também para Octávio Paz. Um pensamento articulado em mosaicos cujos vértices apontavam para uma constituição cultural única, de origens múltiplas, logo despida de etnocentrismos. Dessa perspectiva, não temos um começo, uma origem. Já somos. Tupi or not tupi. Transmutam-se entre nós informações de diversas culturas, de variadas épocas.
Lezama desenhou a imagem de um sujeito metafórico, espécie de entidade que leva esta processualidade a picos de plasticidade constitutiva: são momentos em que este poder demoníaco da tradução atinge graus elevados de sofisticação criativa. Nossa morenice erotizada, nossa malemolência, os ritmos múltiplos de nossos corpos semióticos transversais e profanos, tudo isso como que entra em um jorro de profusão espérmica: a cultura como gozo. Ao mesmo tempo, delineiam-se performances de elaboração complexa: informações culturais de ponta são processadas.
Dorival Caymmi, nosso buda nagô, encarnava esse sujeito metafórico lezaminiano: obra concisa, morena e moderna. Ponto singular de força seminal, Caymmi povoou o mundo de sonoridades vivas. A mestiçagem americana encontra nele um exímio tradutor musical: canções que pairam no tempo, assim, Caymmi.
No final do DVD do show Fina Estampa, Caetano Veloso, outro metafórico sujeito das múltiplas espécies conjugadas do continente, promove deliciosa síntese de tudo isso. Ao som da cubana Rumba Azul, o cantor parece improvisar dança de passos singulares. De sua sombra projetada emana em um só tempo Carmen Miranda, Caymmi e o Aleijadinho andando pelas montanhas mineiras. O legado de Lezama Lima vislumbra ali sua imagem síntese.
Lezama desenhou a imagem de um sujeito metafórico, espécie de entidade que leva esta processualidade a picos de plasticidade constitutiva: são momentos em que este poder demoníaco da tradução atinge graus elevados de sofisticação criativa. Nossa morenice erotizada, nossa malemolência, os ritmos múltiplos de nossos corpos semióticos transversais e profanos, tudo isso como que entra em um jorro de profusão espérmica: a cultura como gozo. Ao mesmo tempo, delineiam-se performances de elaboração complexa: informações culturais de ponta são processadas.
Dorival Caymmi, nosso buda nagô, encarnava esse sujeito metafórico lezaminiano: obra concisa, morena e moderna. Ponto singular de força seminal, Caymmi povoou o mundo de sonoridades vivas. A mestiçagem americana encontra nele um exímio tradutor musical: canções que pairam no tempo, assim, Caymmi.
No final do DVD do show Fina Estampa, Caetano Veloso, outro metafórico sujeito das múltiplas espécies conjugadas do continente, promove deliciosa síntese de tudo isso. Ao som da cubana Rumba Azul, o cantor parece improvisar dança de passos singulares. De sua sombra projetada emana em um só tempo Carmen Miranda, Caymmi e o Aleijadinho andando pelas montanhas mineiras. O legado de Lezama Lima vislumbra ali sua imagem síntese.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Pra não dizer que não falei de flores
Nunca confiei no Tribunal de Contas. Mesmo sem dados concretos, mas com indícios dispersos, tinha a sensação de que o órgão encarregado de proteger o dinheiro público oportunizara com que alguns dos seus membros se esbaldassem nele. Emanava desta instituição energia pesada, intoxicante. Agora finalmente o TCE vai para o olho do furacão das maracutaias gaúchas que nos surpreendem a todo o instante, desde que foi deflagrada a Operação Rodin, com a ampliação da rede de coluios. Infelizmente o que era sensação se converte em indisfarçável evidência.
A farra de escândalos chegou a visitar o gabinete do governo do Estado. Entretanto, o conteúdo da fita que o vice-governador gravou da conversa que teve com o ex-chefe da Casa Civil parece esvaziado por estratégias editoriais não muito dispostas a investigá-las. Enquanto isso, o comando da Brigada Militar não economiza em truculência para deter a manifestação de movimentos sociais em uma rede de supermercados globalizada. Ou seja, um estado sob suspeita manda bater, sem dó nem piedade, nos movimentos que não se conformam com a atual ordem das coisas, ordem esta defendida pelos setores que assumiram o estado.
O que poderia ser uma nota diferente no noticiário reforça hipocrisia perversa. Em Belo Horizonte, um rapaz quis surpreender garota com buquê de flores, anel e um pedido de namoro em uma escola. Foi impedido por seguranças. Não conformado, tentou pular o muro. Vizinhos impregnados com a paranóia da segurança e da vigilância (o panóptico de Focault) resolvem denunciá-lo e ele acaba preso por querer fazer uma declaração de amor. O escritor Roberto Freire, que faleceu recentemente, falava, em Cléo e Daniel, do poder corrosivo de um simples beijo. Em Dialética da Solidão, Octávio Paz detecta a incapacidade burguesa de vivenciar o amor na sua radicalidade. Quando a Globo não tem coragem de colocar no ar um beijo gay e gente é presa por tentar entregar flores à namorada, não deveria causar espanto que movimentos sociais derrubassem gandulas para propor um mundo diferente.
A farra de escândalos chegou a visitar o gabinete do governo do Estado. Entretanto, o conteúdo da fita que o vice-governador gravou da conversa que teve com o ex-chefe da Casa Civil parece esvaziado por estratégias editoriais não muito dispostas a investigá-las. Enquanto isso, o comando da Brigada Militar não economiza em truculência para deter a manifestação de movimentos sociais em uma rede de supermercados globalizada. Ou seja, um estado sob suspeita manda bater, sem dó nem piedade, nos movimentos que não se conformam com a atual ordem das coisas, ordem esta defendida pelos setores que assumiram o estado.
O que poderia ser uma nota diferente no noticiário reforça hipocrisia perversa. Em Belo Horizonte, um rapaz quis surpreender garota com buquê de flores, anel e um pedido de namoro em uma escola. Foi impedido por seguranças. Não conformado, tentou pular o muro. Vizinhos impregnados com a paranóia da segurança e da vigilância (o panóptico de Focault) resolvem denunciá-lo e ele acaba preso por querer fazer uma declaração de amor. O escritor Roberto Freire, que faleceu recentemente, falava, em Cléo e Daniel, do poder corrosivo de um simples beijo. Em Dialética da Solidão, Octávio Paz detecta a incapacidade burguesa de vivenciar o amor na sua radicalidade. Quando a Globo não tem coragem de colocar no ar um beijo gay e gente é presa por tentar entregar flores à namorada, não deveria causar espanto que movimentos sociais derrubassem gandulas para propor um mundo diferente.
Adversidades políticas
Os recentes escândalos protagonizados pela política do Rio Grande do Sul merecem alguma dose de atenção. O estado sempre se orgulhou (entre tantos outros orgulhos desmedidos) de ter uma classe política avessa a corrupções e de conduta retilínea. Isso, além de ser uma impossibilidade conceitual, jamais de fato existiu. Porque os escândalos sempre pontuaram a nossa política, basta lembrar as cestinhas de natal na Câmera de Vereadores de São Leopoldo que eu mesmo denunciei em 1984. Daquela vez houve processo judicial e os 21 ocupantes do legislativo municipal foram condenados e impedidos de se candidatarem na eleição seguinte.
O episódio em tela mostra-se repleto de nuances interessantes. Há um emaranhado de intrigas palacianas e palacianinhas que coloca em cheque o teor das alianças costuradas não só no furor da eleição, mas também para sustentar a governabilidade da coligação eleita. No caso de Yeda e Feijó insurgiu uma estranha rusga de saída, parecendo que governadora e vice emergissem de chapas distintas. A fora isso, a governadora prima pela arrogância, aspecto que a afasta de políticos, digamos, mais alinhados com o “bem” abrindo avenidas para se cercar da banda podre perita em maracutaias. Também chama a atenção deputados do PT se associarem a Feijó, do Democratas, antigo PFL, inimigos mortais em tantas outras pelejas.
Assim que estourou a operação Rodin e a CPI, não levei muita fé que toda esta encrenca ascendesse a conseqüências políticas mais sérias. Pelo visto, estava completamente enganado. Um político experiente do PMDB, que já surfou pelo PSDB, me garantiu que a governadora não atravessa o ano no cargo. Talvez seja exagero, mas devido ao inevitável isolamento que seu governo passa a mergulhar por sucessivas crises políticas a pouco mais de um ano de mandato, não surpreenderá que um fora Yeda comece a ganhar corpo.
O episódio em tela mostra-se repleto de nuances interessantes. Há um emaranhado de intrigas palacianas e palacianinhas que coloca em cheque o teor das alianças costuradas não só no furor da eleição, mas também para sustentar a governabilidade da coligação eleita. No caso de Yeda e Feijó insurgiu uma estranha rusga de saída, parecendo que governadora e vice emergissem de chapas distintas. A fora isso, a governadora prima pela arrogância, aspecto que a afasta de políticos, digamos, mais alinhados com o “bem” abrindo avenidas para se cercar da banda podre perita em maracutaias. Também chama a atenção deputados do PT se associarem a Feijó, do Democratas, antigo PFL, inimigos mortais em tantas outras pelejas.
Assim que estourou a operação Rodin e a CPI, não levei muita fé que toda esta encrenca ascendesse a conseqüências políticas mais sérias. Pelo visto, estava completamente enganado. Um político experiente do PMDB, que já surfou pelo PSDB, me garantiu que a governadora não atravessa o ano no cargo. Talvez seja exagero, mas devido ao inevitável isolamento que seu governo passa a mergulhar por sucessivas crises políticas a pouco mais de um ano de mandato, não surpreenderá que um fora Yeda comece a ganhar corpo.
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