A palestra de Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento ontem em Porto Alegre revelou-se extraordinária. Aos 90 anos, em plena forma física e intelectual, ele fez análise da atual conjuntura global, com ênfase na crise que afeta as bolsas, alertando que não se trata de algo que se dá apenas no plano econômico. Estamos diante de uma crise profunda, de várias dimensões que, como toda a crise concebida de forma sistêmica e complexa, pode produzir situações terríveis mas também perspectivas alvissareiras. Condenou o que chamou de "tentáculos terríveis do polvo do mercado capitalista insano" e o "polvo dos fundamentalismos religiosos e xenófobos". Defendeu uma mescla de "globalização e desglobalização" que contemple os laços comunitários em rede com uma possível gestão compatilhada dos problemas globais e os laços comunitários presenciais com a consolidação das múltiplas identidades. Apesar de todos os horrores, ainda se diz esperançoso dando sentidos complexos às desgatastadas palavras amor e solidariedade.
Na contramão do seu pensamento, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou matéria que não conseguiu captar a alma do seu pensamento. Dedicou as páginas 4 a 10 à cobertura da atual crise. A análise mais original sobre ela estava justamente na conferência desse grande pensador. O jornal prefiriu ignorar isso, privilegiando apenas os seus aspectos técnicos e políticos, colocando matéria da palestra na pag. 28 com o ridículo título "De improviso e com esperança". As práticas de edição do jornalismo ainda continuam alheias à complexidade do mundo.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
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