Quando assisti Gritos e Sussurros de Ingmar Bergman, tinha um pouco mais de 14 anos. Na época, abria mão da meia entrada para não ser obrigado a apresentar carteira de estudante na portaria e assim conseguia livre acesso aos filmes proibidos para menores numa época em que esse tipo de controle era exercido com total rigor. Esse filme, particularmente, significou uma espécie de entrada abrupta na idade adulta. Todas aquelas tensões em tons vermelhos me conduziram para labirintos do ser que eram, ao mesmo tempo, deslumbrantes e apavorantes. Lembro até hoje da perplexidade que fiquei, mesmo sem entender a plena profundidade do que vislumbrava, mas com a convicção de perceber, naquela tela de um imenso rubro, a fratura exposta da alma humana, tão frágil na sua magnitude.
Três momentos do filme de Bergman tiveram especial eco na minha memória. Em um deles, uma das irmãs vai, por obrigação, fazer sexo com o marido, espatifa uma taça nas mãos, introduz os estilhaços na vagina e exclama: isso não passa de um punhado de mentiras. Na outra, o pastor encomenda o corpo de irmã que morre, rogando a ela que, se encontrasse o criador, pedisse que nos fornecesse um significado para nossas vidas. Na terceira, a criada aconchega a moribunda em seu colo e lhe dá de mamar, recriando a Pietà, como que desejando perpetuar a vida.
Aquela noite de domingo tornou-se inesquecível. Foi como se um turbilhão de enigmas, desafios, tensões, insolvências se desfraldasse diante de uma mente ainda precoce para se ocupar com o sofrimento do mundo. Eu, que já vinha de um histórico de ausências, da orfandade e, de uma certa forma, de me sentir só no mundo, percebi, via Bergman, uma espécie de solidariedade, de universalidade de uma sensação que me parecia tão particular e exclusiva.
Por conta disso, Bergman se transformou em um dos cineastas do meu coração. Muita gente não gostava, não se sentiam à vontade diante do que entendiam como frieza excessivamente nórdica, pessimismo e muita perturbação de alma. Eu interagia com este universo plenamente, no que pese uma certa vocação para alegria. O duelo de piano que ele estabelece entre mãe e filha interpretadas pelas maravilhosas Liv Ulmann, a principal atriz de sua carreira, e Ingrid Bergman, é uma das coisas mais memoráveis da história do cinema.
O pastor que encomenda o corpo de Agnes em Gritos e Sussurros num determinado momento sai do roteiro de uma oração burocrática e implora: “Se for o caso de que tenhas juntado nosso sofrimento em teu pobre corpo; se for o caso de que o tenhas carregado contigo através da morte; se for o caso de que encontres Deus, lá longe, nessas outras plagas; se for o caso de que possas então falar a língua que este Deus entende; se for o caso de que possas então falar com este Deus. Se for esse o caso. Pede por nós Agnes, querida criancinha, e escuta o que agora vou te dizer. Pede por nós que ficamos para trás nesta terra escura e suja, sob um céu vazio e cruel. Deposita teu fardo de sofrimento aos pés do Deus e pede-Lhe para nos perdoar, pede-Lhe, finalmente, para que nos liberte de nossa ansiedade, de nosso desgosto e de nossa dúvida profunda”.
Querido Bergman, de onde estiver faça isso: peça por nós.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
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