Ao longo destas duas semanas que precederam à tragédia doa Airbus da TAM, uma enxurrada de situações, questões, dissimulações e pouquíssimas ações inundou os espaços midiáticos. Até mesmo uma polêmica envolvendo o aparentemente asséptico Observatório da Imprensa - para alguns maldosos, crematório -, que resolveu reproduzir imagem não liberada pela TV Cultura, em que um corpo em chamas aparece despencando do prédio dos horrores, ganhou a cena com alguma repercussão. De tudo que foi dito (e a Veja mais uma vez resolveu a questão, como havia feito tempos atrás quando endossou de forma categórica o laudo falso de Badan Palhares no caso de assassinato de PC Farias: a culpa foi do piloto) gostaria de chamar a atenção para duas circunstâncias que, se não foram as responsáveis diretas pelo acidente, são, no meu entendimento, seus principais deflagradores.
Falo, de um lado, da ganância exacerbada que ganha formas sofisticadas, mas no fundo grosseiras, neste capitalismo ultra turbinado dos chamados tempos globalizados e, de outro, desta coisa brasileira tão nossa de desprezar sistematicamente dispositivos de segurança como se eles mais atrapalhassem do que nos ajudassem. Quando implementaram Cumbica na década de 1980, as autoridades da época reduziram Congonhas a um aeroporto de poucas operações. Ele já não oferecia mais segurança devido aos limites de sua pista e pelo fato de que a especulação imobiliária transformara seu entorno numa cidade completa que, em se tratando de São Paulo, se traduz na construção de imensos espigões. No correr da década seguinte, aquilo que era perigoso passou, aos poucos deixou de ser. Coincidindo com a entrada em circulação da TAM, cujos vôos regionais tinham como destino Congonhas, rapidamente este aeroporto voltou a um esquema de grande circulação e, nos anos 2000 já reinava novamente como o mais movimentado do país.
O que aconteceu neste meio tempo? Mudou a percepção das autoridades com relação à segurança do local? De uma hora para a outra o aeroporto voltou a oferecer tranqüilidade? Evidentemente que há uma pressão econômica nesta metamorfose vil. Concentrar as conexões em Congonhas significa uma excelente otimização de custos nas operações das companhias que, ato contínuo, passaram a aumentar significativamente o volume de vôos com o ocaso das empresas tradicionais e a emergência das novas, a GOL à frente, em que os serviços de bordo praticamente desaparecem o que diminui o valor das passagens. Muito mais gente voando e todos, quando não no destino final, passando por Congonhas.
Essa tendência do comércio aéreo sequer se abalou com a tragédia do Folker 100 há 10 anos, que já sinalizava para os perigos iminentes de um aeroporto cravado no interior de uma grande cidade. Congonhas passou por uma grande reforma, boa parte dela cosmética: a área interna foi incrementada com salas de embarque mais confortáveis e muitas lojas, restaurantes e outros serviços disputando cada palmo de espaço disponível. Já as pistas.... E, para complicar, ainda autorizam a edificação de novos prédios quase que na cabeceira da pista.
Enquanto isso, o Airbus que explodiu estava com defeito em um dos reversos. Mas não faz mal, deve ter pensado a companhia. Vamos deixar assim mesmo. Estamos em alta temporada e não podemos abrir mão desta aeronave. Não podemos comprometer nossos lucros. Depois resolveremos isso. Enfim, nós já tínhamos feito um grande pressão para reformarem a pista principal antes de começarem as férias de julho, não podemos parar agora. Capitalismo selvagem é pouco. Ganância pura.
E aí entra o tal jeito brasileiro de lidar com segurança, como se acidentes só acontecessem com os outros. Prevenção para quê? Fico sempre muito impressionado quando vejo pais atravessando avenidas com filhos pequenos nos lugares mais impróprios. É tão forte esta cultura que, quando me deparo com tal cena, chego a duvidar do amor incondicional que os pais juram ter pelos filhos. Que é amor é esse que faz com que uma mãe sente-se no banco da frente de um carro com seu bebê no colo? E as pessoas que falam no celular ao volante sem o menor constrangimento, para não dizer prepotência?
Há inúmeras outras situações típicas de irresponsabilidade coletiva que não vale à pena ficar aqui listando. Mas essa cultura adicionada ao apetite voraz das companhias se transforma em bombas das quais nem eu, nem você estaremos livre. E para dar mais combustível a essa ganância, a gestão do setor aéreo com Infreaéro, Anacs e ministérios loteados, é uma piada daquelas que não tem a menor graça. Como alguém já disse, pare o mundo que eu quero descer.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
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