quarta-feira, 25 de junho de 2008

Memórias midiáticas

Quando criança na década de 1960, as tardes de domingo eram povoadas pela proliferação de sons que transbordavam de grandes aparelhos de rádio acionados por vávulas e por alguns poucos, mas já insinuantes, pequenos aparelhos de pilhas que tinham nos modernos transistores a fonte do seu charme portátil irresistível. Os sons atravessavam as ruas tomadas por garotos que inventavam brincadeiras, a maioria delas movida pelas bolas que passavam de pé em pé, e por vezes, uma matada no peito e um cabeceio. Lá pelas tantas, as canções de Lennon e McCarteney e de Chico Buarque (sim, naquela época as emissoras tocavam Chico Buarque) cessavam e instalava-se o frenesi: iniciavam as jornadas esportivas que atravessavam as tardes até o limiar da noite.
Aquele universo sonoro com suas descrições de dribles mirabolantes, defesas impensáveis, a trajetória terrivelmente lenta da bola que quase chegava à rede, mas desviava-se e chocava-se na trave, ou, quando chegava, a explosão do locutor gritando gol, enfim, esse mundo que se imaginava através dos sons era absolutamente arrebatador. Sem esses sons midiáticos que se dispersaram em memórias difusas, talvez jamais se desenvolve-se, entre minhas predileções, a paixão pelo futebol. Paixão reforçada nas matinês quando exibiam, em cinemascop, antes da dupla sessão de filmes ou de Tarzan, ou de 007, as grandiloqüentes imagens de partidas travadas no Maracanã.
O poder agenciador da mídia em todas as instâncias da vida humana é fato irrecusável e fomenta boa parte dos estudos sobre comunicação. Imagina-se o impacto suscitado em gerações mais pregressas com o nascedouro desses meios que tinham a capacidade de levar a territórios longínqüos notícias, romances, histórias fantásticas, boxe e futebol. Compreensível que a apreensão crítica sobre esses meios se exacerbassempelas transformações que provocaram, pelo seu potencial caráter homogenizador, pelas ingerências econômico-ideológicas, pelos perigos manipulatórios. Compreensível, também, que nessa fase do capitalismo, a indústria midiática trouxesse outras problemáticas aterrorizadoras como se vivêssemos num panótico sem saída, controlado pela mídia.
Entretanto, quando lembro dos sons das narrativas esportivas, ocorre-me que algo se perde nas necessárias perspectivas críticas nas quais se enquadram boa parte das teorias da comunicação. No que pese toda a ordem de problemas que os mídias suscitam, há neles uma coisa chamada dimensão lúdica. E como mídias formam sistemas abertos e hipercomplexos, sujeitos a ruídos, entropias e acasos, o lúdico é um dos elementos que tem força para desestruturar, pelo menos em parte, seu caráter ultra agenciador

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